terça-feira, 27 de abril de 2010

Celibato não é assunto "intocável" para o Vaticano, diz cardeal Bertone

O cardeal Tarcisio Bertone, secretário de Estado do Vaticano, que no início do mês ligou a pedofilia à homossexualidade e não ao celibato, afirmou hoje em entrevista a uma rede de televisão espanhola que a proibição ao casamento não é um tema "intocável" na Igreja, acrescentando que "existem igrejas orientais e também católicas que têm padres casados".

No entanto, a proibição -- imposta à maioria dos religiosos católicos -- seria uma "tradição positiva e frutífera", destacou.

"A não-observância do celibato que leva a graves riscos, e tem consequências que, depois, são muito dolorosas e prejudiciais", insistiu o cardeal em visita oficial à Barcelona, onde participou, no domingo, na cerimônia de beatificação do sacerdote catalão Josep Tous i Soler.

Em uma entrevista ao jornal "La Vanguardia", Bertone disse no domingo que a proliferação de escândalos de pedofilia entre os religiosos católicos não tem uma relação direta com o celibato dos padres.

O cardeal Bertone, que se reuniu ontem, no último dia de sua visita a Barcelona, com o rei Juan Carlos, foi protagonista de uma polêmica no início de abril ao relacionar a pedofilia com a homossexualidade.

Crise
Á medida em que o escândalo em torno do abuso sexual de crianças por parte de padres vem se alastrando, alguns setores da Igreja Católica começaram a pedir uma revisão da norma da Igreja que proíbe os padres de se casarem, dizendo que o casamento lhes permitiria desfrutar de uma vida sexual saudável.

Bertone, que às vezes é chamado de "vice-papa", disse em entrevista coletiva concedida em Santiago no dia 12 de abril que: "Muitos psicólogos e psiquiatras já mostraram que não existe vínculo entre o celibato e a pedofilia, mas, me foi dito recentemente, muitos outros já demonstraram que existe uma relação entre homossexualidade e pedofilia."

"Esta (a homossexualidade) é uma patologia que atinge pessoas de todas as categorias, e sacerdotes em grau menor, em termos percentuais", disse ele. "O comportamento dos padres neste caso, o comportamento negativo, é muito sério, é escandaloso."

Críticas
Ativistas de defesa dos direitos dos gays reagiram com escárnio e ultraje.

"É um absurdo científico. A Organização Mundial da Saúde descreve o homossexualismo como uma variante do comportamento humano. É a pedofilia que é uma patologia, um crime, e não o homossexualismo", disse Franco Grillini, ex-parlamentar que esteve na vanguarda do movimento italiano de defesa dos direitos dos gays.

"Pelo fato de terem seus próprios problemas com a crise dos abusos e de não saberem como lidar com isso, estão tentando transferir sua 'cruz' dos ombros deles para os nossos", disse Grillini à Reuters.

O Ministério do Exterior da França disse que foi "uma vinculação inaceitável e que condenamos".

Alguns blogs católicos pró-Vaticano disseram que mais polêmica é a última coisa de que o Vaticano precisa.

"Pedofilia e homossexualismo: Bertone tropeça --mais uma vez-- sobre os gays", disse um post no "Blog dos Amigos do papa Ratzinger."

O blog disse que agora o papa terá que "limpar a sujeira feita por seu braço direito".

Resposta do Vaticano
O porta-voz do Vaticano, padre Federico Lombardi, divulgou um comunicado no qual tentou minimizar a repercussão do incidente.

Ele disse que líderes da Igreja não estavam fazendo "afirmações gerais sobre uma natureza psicológica específica" e mostrou estatísticas da Igreja mostrando que dois terços dos casos de abuso de adolescentes por padres envolviam padres homossexuais.

Em sua audiência semanal geral, o papa Bento 16 não fez nenhuma referência direta à crise enfrentada pela Igreja.

Um editorial de primeira página no jornal romano de viés esquerdista "La Repubblica", intitulado "A Confusão na Igreja", disse que as declarações de Bertone acabarão por "prejudicar mais a própria Igreja, e não os homossexuais".

Bertone também foi criticado pela deputada de direita Alessandra Mussolini, cujo avô, o ditador fascista Benito Mussolini, enviou os gays para o exílio interno.

"Não se pode vincular orientação sexual a pedofilia. O vínculo corre o risco de ser perigosamente enganoso para a proteção das crianças", disse ela.

O ArciLesbica, principal grupo italiano de defesa dos direitos das lésbicas, acusou o Vaticano de usar "declarações violentas e enganosas" para desviar a atenção de seu escândalo de abuso sexual e disse que os pais italianos deveriam estudar a possibilidade de tirar seus filhos de instituições dirigidas pela Igreja.

fonte: Folha Online

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